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domingo, 2 de novembro de 2014

ASSOMBRAÇÃO NÃO VAGA À TOA

(Conto de Terror em três atos)
PRIMEIRO ATO
 BLOG O PLEBEU
A missão que o Padre Jacinto recebeu foi convencer Tertúlio que assombração não existe. O causo, repleto de misticismo, está associado ao Padre só por uma questão de itinerário: apenas pelo muro do cemitério.
            - “Esse caminho foi profanado”. Era o que todos diziam.
            Tertúlio saíra do Forrobodó de Dondinha às duas horas da madrugada e já havia ultrapassado o muro do cemitério. Começava a respirar mais à vontade, pois à beira do muro sombrio, ninguém respira; para se fingir de morto. Só então acendeu seu cigarro. “A chama atrai as almas penadas” – era a crença.
            O céu estrelado, de lua cheia, foi se tornando coberto de nuvens negras. Não demorou nem um canto de galo e tanto Tertúlio quanto o seu cavalo assustaram-se com um raio, seguido do trovão que arrolou céu abaixo, trazendo grossos pingos de chuva fechada. Tertúlio deu umas tragadas fortes no cigarro e riscou a espora de leve no animal marchador para acelerar o passo. Logo avistou indo à sua frente, outro cavaleiro, que pelo tamanho e jeito de montar, era Custódio.
            Tertúlio, já todo ensopado, jogou o cigarro fora e esporeou mais uma vez o animal para alcançar o seu amigo que viajara para a Capital há mais de cinco meses. E é sempre bom ter companhia pelas estradas vazias, pois o silêncio zoa besteira no ouvido e o medo vai chegando por trás até alçar à garupa; sopra no cangote e qualquer corajoso começa a ver, numa sombra de bananeira, um monstro que tocaia na curva. Além disso, tomaria conhecimento das novidades da Capital.
             Custódio ficou feliz ao ver Tertúlio.
            – Tertúlio!!!... Quanto tempo!... Tá sumido...!
            – Eu é que digo isso, Custódio!... Foi você que debandou para a Capital...!
            – Foi mesmo. Mas estou de regresso. A coisa lá não foi boa. Nem devia ter ido...
            Custódio deslanchou a narrar as façanhas praticadas na Capital. Tertúlio não acreditou em nenhuma das lorotas avantajadas do papudo que ganhava todas as apostas, todas as brigas, todas as garotas... Porém, num repente, Custódio deixou Tertúlio com o cabelo arrepiado. Descreveu mais uma de suas peripécias ocorrida numa boate de beira de estrada, e proferiu:
            – Tertúlio, sou obrigado a confessar que nessa eu vacilei... me estrepei... não saí vivo.
            Tertúlio decifrou como uma avantajada força de expressão derrotista. Custódio prosseguiu enumerando os pormenores do acontecido:
            – A festa rolava solta na boate. Gente mal-encarada na portaria, mas eu tava lá com um amigo... o Gustavo... gente boa, decente. Amigão mesmo... Eu tava armado na cintura. O indivíduo com um pau de fogo pensa que está acima do diabo. Dentro da boate era um cheiro de maconha dos infernos. A gente fumava sem querer. As máquinas caçavam os níqueis dos otários que davam porradas nos equipamentos e saíam xingando. Uma música ruim!... As meninas de olhos vidrados... Tive vontade de sair, mas uma sirigaita me agarrou pelo braço e chamou pro canto. Meu amigo Gustavo sentou-se perto do balcão, sinalizou que me esperaria. E rala daqui e raspa dali... Tava bom no escurinho... quando alguém segurou no meu pescoço com violência e me empurrou pra cima de uma mesa onde havia uma pessoa sinistra, sentada de cabeça baixa, com o chapéu tapando o rosto. Ela ergueu os olhos. Mirei bem na criatura e tomei o maior susto. Tertúlio... era eu mesmo... na figura da morte. Virei, procurando quem havia me agredido, e um crioulo vinha com uma peixeira de todo tamanho...
            A essa altura, Tertúlio já esperava que Custódio diria que matou a própria morte e, ainda, de quebra, o desaforado que o empurrara; isso tudo num só golpe.
            Tertúlio sorriu e interferiu no monólogo de Custódio:
            – Custódio, você andou bebendo mais do que podia na viagem?
            – Não, Tertúlio, era a bendita morte mesmo. Eu não sabia que ela chegava disfarçada assim. Somos nós mesmos que nos levamos. Não tinha mais como eu retroagir, tampouco escapar vivo daquela boate. Você vai ter certeza disso amanhã... quando meu corpo chegar dentro de um caixão.
            Tertúlio estava vendo Custódio bem na sua frente. Gargalhou folgado e sofismou para si:
            – “Filho de uma boa mãe, só porque vagabundou um tempo na Capital quer derramar histórias... ou ingeriu droga pesada e sua cabeça voa acima dessas nuvens escuras.”
            As quais Tertúlio notou tornarem-se cada vez mais negras. Desconfiou que Custódio queria valer-se da chuva e dos relâmpagos para amedrontá-lo a tal ponto de convencê-lo que assombração existe e ainda anda a cavalo... E depois tiraria sarro de sua cara. Por isso, prosseguiu a rir frouxo, fazendo pouco-caso da história.
            Custódio não se incomodou com as gargalhadas de Tertúlio, só insistiu:
            – Estou aqui, a cavalo, porque foi a única maneira que encontrei para que você me ouvisse. Preciso lhe pedir uma coisa e informar outra. O que vou lhe pedir é simples: sempre que puder, vai rezar na minha sepultura. E a informação é que nós dois... somos irmãos... por parte de pai.
            Tertúlio riu debochado e Custódio se aborreceu. Irritado, alertou:
            – Pois saiba que quem se desapega da vida sem trancar a porta, o espírito volta em busca do corpo, e quando não encontra, encarna no primeiro que esbarrar.
            Tertúlio nem se importou com tamanha insensatez, só rebateu:
            – Custódio, eu estou vendo você com cara de sabichão, querendo passar trote em jagunço de roça... não se esqueça que você é um capiau de...
            Tertúlio, perplexo, gelou. Um relâmpago clareou nitidamente a face cadavérica de Custódio, que estourou no vento. Sumiu de suas vistas. Só o cavalo continuou em marcha, sozinho, no pelo. E cadê Custódio?... Tertúlio, atônito, olhou rapidamente para trás, para a direita, para a esquerda, novamente ao redor e pareceu-lhe ouvir um gemido. Outro relâmpago – outro susto –, a luz iluminou a estrada molhada e vazia. Tertúlio, afogueado, enfiou os calcanhares no seu cavalo e desembestou estrada afora.
            Será que desacatara uma assombração mascarada de Custódio? Ou ele realmente morreu e veio suplicar para alguém rezar em seu túmulo? Seria verdade ou apelação de alma penada essa história de parentesco?... E quem era filho de quem? O morto seria filho do pai dele ou ele seria filho do pai do morto?
            Dessa novidade, ele não poderia mais tirar a prova dos nove, pois Maricota, mãe de Custódio, falecera há mais de sete anos e ele também ficara órfão ainda criança. E mais a mais não poria empecilhos duvidosos na cabeça de seu velho e querido... pai; mesmo porque sempre o amara como tal, não seria uma assombração repentina que iria mudar esse sentimento.
            Chegou em casa abobalhado. Não produzia uma frase inteira. Parava estático. Revivia partes das cenas. Todos pensaram que ele estivesse bêbado ao extremo, mas como não apresentava os sintomas da embriaguez, aos poucos se convenceram que o melhor era que ele ingerisse alguns goles de água adoçada. Depois de muito respirar, ainda atordoado com os relâmpagos, Tertúlio conseguiu relatar a sua epopeia. Só omitiu a suposta consanguinidade com a aparição estrovenga... isso a todo momento vinha-lhe na boca, mas ele facilmente a engolia.
            Foi justamente assim que Padre Jacinto o encontrou. Como convencer o pobre fantasmagórico de que assombração não existe? Ou não existia... até ontem... Porque, solenemente, às 10 horas do dia seguinte o corpo de Custódio chegou; trazido por um amigo, de nome: Gustavo – que descreveu história idêntica à de Tertúlio.
            Até Padre Jacinto começava a hesitar sobre a falsidade do fato pressagiado. Porém, para encobrir a incerteza, ele precisava ir à casa de Tertúlio, que caducava de revolta e repúdio, porque ninguém acreditava nele. Padre Jacinto, sufragado em sua fé intangível, apoiado no vento, insistia em assegurar para o pobre indomável:
            – Tertúlio, alma penada não existe... tudo foi fruto de coincidências... e da sua imaginação.
            Mesmo assim, Tertúlio, feito um zumbi, vai rezar todos os dias no sepulcro de Custódio. Busca encontrar ali um refúgio, um acalanto, pois só os dois sabem o vínculo milagroso. E quando o fato é mesmo um milagre, sua revelação se reverte em caduquice.

SEGUNDO ATO
BLOG O PLEBEU 
             Seu Osvaldão, pai de Custódio, por intuição de que auxiliaria o filho a ingressar no Reino de Deus, mandou construir uma lápide portentosa. E abriu um desvio de mais de dois quilômetros na estrada. Assim, nunca mais passaria rente ao muro do cemitério. Confessava, abertamente, que só entraria ali, carregado num caixão. Assim que o tal desvio foi inaugurado, o homem faleceu. Faleceu não é bem o termo... foi encontrado sem vida, justo no meio do bendito desvio. Apregoam as más-línguas que foi morte de susto. A alma de Custódio teria aparecido pela última vez; talvez para completar o recado e propagar ao pai (ou não) desnaturado que, ao invés de ir visitá-lo, mandara fazer um desvio de sua morada. Aliás, depois disso ninguém mais quis se aventurar pelo desvio; mesmo tremendo de medo, vinham pela estrada do cemitério e até mula sem cabeça avistaram “pastejando” – afirmavam os menos corajosos.
            Quem se ria de quase estourar a bexiga era Seu Jonas – o coveiro. Um senhor alto, magro, olhos encovados e chapéu chapado na cabeça. Homem de uma coragem sobrenatural. Como o invejavam os medrosos!...
            – Quem mora aqui é mais inofensivo que uma minhoca. Nunca ouvi nada. Agora, se um dia alguma alma ousar se manifestar na minha frente... eu serei eternamente grato a ela, pois terei encontrado a resposta que procuro desde que me entendo por gente. Vou ter certeza que a morte é o início do além-túmulo. Se puder eu até puxo um lero-lero e aperto a mão dela.
Mas como toda história do outro mundo não acaba da noite para o dia...
            Tertúlio engrenou a sonhar com Custódio. O irmão falecido o conduzia à Capital, apresentava um amigo: Nicásio Batista. Mostrava o lugar onde fora assassinado e até a face de seu executor: Bento dos Aires. Numa noite o falecido despontou no quarto. Acomodou-se aos pés do leito e evocou Tertúlio.
            – Tertúlio, vim lhe demandar um favor. O último e único, depois eu parto de uma vez. Um vivo não pode negar o pedido de um irmão morto.
            Tertúlio dormia tranquilamente enrolado em seu cobertor. Acordou sem susto, nem se recordou do sonho pela manhã.
            Na noite seguinte tudo se repetiu. Só que desta vez o falecido cutucou Tertúlio para que ele acordasse e prestasse atenção no recado. Tertúlio, apavorado, sentou-se na cama. Seu irmão consanguíneo, esbranquiçado, estava aos seus pés e reprisou tudo em detalhes.
            Tertúlio sobrepôs mais um susto sobre aquele que já havia tomado. Agora o falecido estava querendo demais... Matar uma pessoa...?! Até tentou replicar, mas a voz medrosa lhe fugiu da garganta. Custódio prosseguiu em seu rogatório:
            – Procure o meu amigo Nicásio Batista. Assim que você puser os pés na Capital, eu estarei ao seu lado, orientando o que deve ser feito.
Custódio desapareceu, deixando Tertúlio de olhos arregalados, fitando as paredes. Como ele já havia sonhado muitas vezes... achou que não acordara, e sim, que ainda dormia. Para segurar a realidade acesa, decidiu: não iria mais se deitar. Se não acordasse pela manhã, teria certeza que não fora sonho e sim, que seu irmão falecido, em espírito, sentara, de fato, em sua cama.
            O galo cantou muitas vezes antes do dia amanhecer. Tertúlio ergueu-se olhando para a cama, precisava certificar-se de que não havia ninguém deitado nela. Lavou o rosto investigando-se ao espelho, fez diversas caretas e deu-se uns tapas fortes. Convenceu-se de que era mesmo a sua imagem que ali refletia. Saiu do quarto.
            Dona Norberta, a governanta da casa, já o aguardava com o sorriso e o cumprimento de todas as manhãs.
            – Bom-dia, Seu Tertúlio. Está um lindo dia, não?
            Tertúlio ajeitou-se à mesa com a esperança emborcada. Queria acordar bem preguiçoso na cama. Mas Dona Norberta preparou a xícara sobre o pires, colocou café, preencheu de leite, puxou a cesta de torradas para perto dele e sondou como sempre:
            – Mais alguma coisa, Seu Tertúlio?
            Só agora Tertúlio resolveu abrir a boca. Ouviria a própria voz e teria certeza definitiva de que acordou de madrugada e se mantivera de olhos aberto, contando o galo pedrês cantar centenas de vezes. Porém, antes de pronunciar algo descabido, achou por bem comer uma torrada. O mastigar, geralmente, acorda quem está dormindo, engolir então, é quase impossível prosseguir no sonho. Assim o fez. Pegou uma torrada e a levou totalmente seca à boca, mastigando com avidez. Engoliu, se engasgando com a secura da goela. Dona Norberta, temerosa que a mente do bestunto piorara em novo surto, vigiava os movimentos desconexos de Tertúlio. Sugeriu delicadamente:
            – Beba um gole de leite, Seu Tertúlio... vai ajudar a diluir a torrada.
            Tertúlio contemplou Dona Norberta e indagou:
            – A senhora está acordada, Dona Norberta?
            Dona Norberta só não riu porque a arguição não vinha com intenção de pilhéria. Respondeu séria, fazendo de conta ser uma argumentação absolutamente normal.
            – Acordei cedinho, Seu Tertúlio. Por quê? Deseja alguma informação?
            – Sim, vá ao meu quarto e veja se eu estou dormindo.
            Dona Norberta demorou-se parada, digerindo o que diria quando retornasse, e ouviu mais:
            – Vá, Dona Norberta, estou exigindo.
            Dona Norberta, meio desajeitada, desequilibrada e de soslaio, afastou-se inconformada, mas foi sutilmente astuta.
            – Pois não, Seu Tertúlio. Volto num instante.
            O caso era mesmo para Tertúlio se aprofundar nas pesquisas. Taxado de doido ele já era; ser taxado de mais doido, não iria fazer diferença nem modificar a sua deplorável situação. Então arriscou e entornou toda a caduquice disponível.
            E não é que, a caminho do quarto, Dona Norberta encontra o pai de Tertúlio!
            – O Tertúlio já levantou? – interroga autoritário, pois Dona Norberta, obrigatoriamente, deveria saber onde seu filho se encontrava.
            – Está tomando o seu café, Patrão, quero dizer, o dele.
            – E por que a senhora não está lá, ao lado da mesa, servindo-o?
            E agora? Dona Norberta, submissa, desova a franqueza ou mente para aliviar o sofrimento do Patrão? Mas mentir ela só iria se complicar e resolveu chutar a bola, serenamente:
            – Patrão – engoliu –, ele me solicitou para ver... se ele mesmo... ainda está dormindo.
            – O quê?!... E você obedeceu?!... Quem está birutando? Você ou ele?
            Dona Norberta respondeu: "ele" – somente para ela, lógico – para o Patrão explicou bem melhor:
            – Foi o que ele me pediu... ou melhor... exigiu que eu fizesse.
            – Eu vou falar com aquele imbec...
            – Não, Patrão... por piedade. Acho que não devemos piorar as coisas. O incidente ainda... o senhor sabe o que eu estou... insinuando. Isso demora... a neurose não é passageira de curta viagem.
            – Você está certa, Norberta. Mas descubra do que ele desconfia.
            – Pois não, Patrão – e retirou-se.
            Dona Norberta regressou com a cínica informação, mas com a feição séria.
            – O senhor não está dormindo, Seu Tertúlio.
            Tertúlio já esperava por essa resposta, pois após Dona Norberta virar as costas ele fez muitas extravagâncias. Além de se queimar, enfiando o dedo no café quente, mordeu a língua até sentir o gosto de sangue na boca.
            Dona Norberta, obedecendo ao Patrão, investigou de manso:
            – Seu Tertúlio, o senhor queria descobrir o que com essa encenação toda?
            Tertúlio não podia mencionar seus sonhos, muito menos revelar a missão secreta. Citava para si dois motivos: o primeiro, que eles não acreditariam, e o segundo que o impediriam de viajar para a Capital. Precisava enfeitar uma manobra para Dona Norberta e tranquilizá-la, antes que mexericasse com o seu pai.
            – Queria testar seu grau de obediência, Dona Norberta. Parabéns, a senhora é realmente uma excelente serviçal... Obrigado por tudo. Só lhe peço uma coisa: não conte para o meu pai essa brincadeira que fiz.
            – Sem dúvida... fica entre nós.
            Tertúlio levantou-se e foi para o quarto. Dona Norberta quase acreditou e repassou simplesmente o fato para o Patrão.

TERCEIRO ATO
BLOG O PLEBEU 
              Tertúlio só precisaria de uma desculpa: “iria prosear com Padre Jacinto”.
            Disfarçadamente, aprontou as tralhas no lombo do cavalo. Não levou nada. Seria uma viagem rápida, “um tiro lá e um pé cá” – supôs. Na volta se embrenharia na mata até ser encontrado por alguém. Diria que esqueceu o caminho. Era doido mesmo!...
            Passou no cemitério. Avisou ao irmão que estava pronto para a missão. Desviou da Igreja, pois Padre Jacinto sempre andava pelo pasto.
            Em Jaguará-Mirim quase foi visto por Vespasiano um amigo seu, que passeava na Praça de mãos dadas com seu filho. Tertúlio, após aquele causo assombroso, tornou-se figura popular na região, temia ser reconhecido; abaixou o chapéu até cobrir todo o rosto e fingiu dormir sobre a montaria. Descambou por uma picada estreita que o levaria direto para São Pedro do Livramento. Assim que chegou, soltou o cavalo num pasto isolado, guardou os arreios debaixo dum pé de guaxima e voltou a pé para a estação do trem. Comprou a passagem e esperou respirando a fedentina do banheiro. Só saiu de lá, meio amarelado, quando ouviu o apito da partida. Desinquieto, adentrou ao vagão sem olhar para os lados. Entuchou-se num assento do canto e só ergueu o braço para entregar o bilhete.
            Tertúlio não queria que o vissem indo para a Capital. Nem ninguém da Capital, além de Nicásio Batista, soubesse que por lá ele estivera. Achou ser esse o plano caduco do irmão. Ninguém pode ser acusado de ter matado alguém se não esteve presente no local do crime.
            O reboliço da Capital era novidade para Tertúlio e enchia seu semblante de deslumbramento. Quando saltou do trem, não sentiu a presença do irmão como lhe prometera que faria. Receoso que o falecido se atrasara para o encontro e julgando-se traído, caminhou pela plataforma.
            – "Cadê esse fantasma tratante?"
            Foi neste lapso de tempo que Tertúlio avistou Nicásio Batista... a pessoa que seu irmão lhe mandara procurar. Acelerou o passo para alcançar o amigo de seu irmão e chamou alto:
            – Nicásio Batista...!
            Nicásio Batista, amedrontado, olhou para trás. Não fazia ideia quem era a figura que vinha se achegando sorridente. Fez menção de correr. Tertúlio o agarrou forte pelo braço e debulhou:
            – Eu sou Tertúlio, irmão... – empolgado, quase que cospe o segredo do parentesco; retificou a tempo. – Quero dizer, eu era colega do Custódio.
            Ao ouvir “Custódio” Nicásio Batista sossegou numa pergunta.
            – Então... é você o executor?!
            Tertúlio não abriu o jogo, pois caso algo saísse errado ele abortaria a missão. Ordenou apenas:
            – Eu quero saber o que ele comunicou a você.
            Nicásio Batista, ainda incrédulo, encostou-se na parede rente à calçada. Extraiu um chumaço de algodão dos ouvidos e balbuciou:
            – Eu não acreditei quando o espírito dele me cercou e implorou socorro. Tentei tapar os ouvidos, mas o recado vinha de dentro para fora. Tá certo que eu devia favores a ele... que jamais poderei pagar, mas o Bento dos Aires é um contraventor barra-pesada. É filho sem mãe. Tem capanga e espiões espalhados por toda a cidade. Ele não puxa gatilho, só manda matar. Basta piscar opaco... e tá ferrado, despacha, some com o corpo... queima, joga na maré, enterra. Até a polícia tem medo dele...!
            Agora Tertúlio sabia quem iria enfrentar e podia confiar em Nicásio Batista. O homem desembuchou mais do que ele esperava.
            – Custódio me assegurou que estaria comigo. Então ele deve estar por aqui. Agora que encontrei você...
            – Você não me encontrou. Ele me trouxe – salientou Nicásio Batista. – Só posso fazer o que ele manda. Venha comigo.
            Nicásio Batista levou Tertúlio até a sua casa: um casebre precariamente instalado sobre o mangue. Para chegar foi preciso transpor várias pinguelas de taipa, sobre fracos tocos, que ziguezagueiam pelos inúmeros barracos. Uma mulher, numa roupa encardida e rasgada, cercada por cinco crianças subnutridas, esperava à porta. Nicásio Batista não deu conversa à gurizada que lhe reivindicava coisas. Falou apenas para Tertúlio entrar e aguardar. Pelo tamanho diminuto, o barraco só tinha dois cômodos: aquele em que estavam e outro minúsculo, que servia de banheiro e cujo vaso era um buraco no assoalho de madeira. A maré baixa deixava à mostra as fezes, que aguardavam a água subir para carregá-las.
            Tertúlio manteve-se discreto e calado para que ninguém questionasse o que viera fazer ali. Nicásio Batista pegou uma arma sob o colchão superior de um beliche velho e esticou para ele.
            – Custódio me disse para lhe entregar isso. Só, mais nada.
            Tertúlio hesitou e, agastado, segurou a arma. Foi cutucado e empurrado por ninguém, para fora do barraco. Nicásio Batista alertou arredio:
            – Ele me tratou assim também. Quando queria uma coisa e eu negava, ele me socava. Acho melhor você obedecer...!
            Tertúlio enfiou a arma na cintura e saiu da favela a passos rápidos. Andou como cego com guia. Foi sentado, à força, num banco de jardim em uma praça quase deserta. Permaneceu ali aguardando os cutucões que não vinham. O dia escurecia e Tertúlio começou a se preocupar:
            – “O pessoal de Jeriandando já está à minha procura.”
            Xingava seu irmão quando obteve o comando. Levantou-se com uma pressão no ombro como se fosse a mão de Custódio. Conduzido para um beco, entrou sem medo. Encarou uma ladeira íngreme, empilhada de barracos. Já escuro, chegaram ao topo do morro.
            Tertúlio, resfolegando, voltou-se por vontade própria e admirou a paisagem lá do alto. Notou que na ladeira havia dezenas de marginais armados. Com certeza capangas de Bento dos Aires. Temeu. Como escapar com vida dessa corriola? Havia uma troca de mercadorias entre os transeuntes. Através do cumprimento, algo sólido era repassado, pois todos colocavam a mão no bolso e vistoriavam ao redor antes de seguir caminho.
            Tertúlio recebeu um cutucão mais forte. Desfilou possuído em direção a uma casa de porta verde e paredes sem reboco. Teve seu braço erguido. Bateu na porta. Dois rapazes se chegaram pelas laterais da casa. Tertúlio os afrontou com os olhos em fogo. Eles recuaram medrosos. A porta se abriu automaticamente. Tertúlio foi entrando. A sala estava vazia. Por detrás de uma cortina de barbante, com alguns penduricalhos coloridos costurados, alguém, parado, o observava. Depois, lentamente, mergulhou uma das mãos repleta de pulseiras, fitas e medalhas argoladas ao punho. Em seguida expôs a cabeça, trazendo nela um turbante branco enrodilhado. Vestia uma túnica azul tão comprida que varria o chão. Os olhos de adivinho, contornados fortemente por um lápis negro, sobressaíam no rosto magro. Abriu um sorriso de dentes enegrecidos pela nicotina impregnada. Tertúlio quase caiu de costas quando a figura que se estampava em sua frente olhou para o lado e dialogou como se estivesse vendo, com toda clareza do mundo, o seu amigo Custódio:
            – Custódio, é esse o seu irmão de sangue que veio matar Bento dos Aires?
            A criatura postou-se a ouvir, no vazio, alguma coisa do além e, por fim, garantiu:
            – Sim, três espíritos em transe substituem um vivente... Desde que dois deles tenham o mesmo plasma, senão... – parece que foi interrompido. Balançou a cabeça. Duvidou. Concordou e retaliou:
            – Sendo o parentesco capenga, só posso ajudar uma vez, duas é impossível... – fez alguns movimentos de reverência e desafogou. – Bento dos Aires indo para a sua companhia... será um alívio para mim.
            O bruxo aguardou algum comentário, e depois analisou Tertúlio com ar superior:
            – Querido, não quero nem saber o seu nome. Você acende esse charuto. Fuma, mas não puxa a fumaça para os pulmões; não puxa... solte toda no caminho até dentro do cabaré. Só assim você ficará invisível para todo o mal.
            Tertúlio não estava ali para discordar. E, guiado, avançou tal qual chaminé ambulante. O cabaré era uma casa grande, de dois andares, postada numa esquina. Tertúlio chegou ouvindo um bebum que, estirado no chão, chorava suas mágoas. Entrou como turista que perdeu o caminho e foi parar naquela favela; se comandado, agiria, caso contrário manter-se-ia imóvel como poste sem lâmpada. Tertúlio foi empurrado até ao balcão e sentado com força num tamborete. Ao ver o garçom aproximar-se pensou em beber, mas, com voz de quem sabe o que quer, verbalizou o que não queria dizer:
            – Depois eu peço, estou aguardando um camarada.
            O garçom retirou-se e ele sondou o ambiente sem saber se era por conta própria ou vontade de Custódio. Logo identificou que foi pela segunda opção. Soltou uma baforada, deixou o charuto no cinzeiro, se levantou sem querer e dirigiu-se para um corredor. Parou defronte a uma porta de grossos entalhes. Bateu um toque de compasso esquisito. A portinhola se abriu na altura de seus olhos. Tertúlio, incorporado, sentiu seus lábios sorrirem e expressarem formalmente:
            – Quem muito dorme, pouco vive.
            Tertúlio aguardou a porta se abrir e lhe dar passagem. Entrou em dois passos. O segurança revistou-o. Lembrou-se da arma na cintura. O segurança abriu um sorriso largo ao encontrá-la.
            – Precisa deixar isso comigo – avisou, simpaticamente.
            A boca de Tertúlio abriu-se novamente sozinha:
            – Está descarregada... pode verificar.
            O segurança, ante a declaração, sorriu folgado:
            – O que faz com uma arma descarregada na cintura?
            – Não tenho coragem de atirar em ninguém, mas não morro pelas mãos de um Zé Cagão.
            Tertúlio estranhou o papo besta dos dois e seus olhos buscaram o fundo do recinto.
            Lá, bem longe, atrás de uma mesa grande, com uma cigarrilha no canto da boca, divisou aquele que, em diversas noites, encarara nos pesadelos: Bento dos Aires. Sua fisionomia marcante não passaria despercebida nem numa multidão. Bento dos Aires, bonachão, articulou para seu capataz:
            – Esse deixa ingressar. Ele veio me pagar. – Gritou. – Surdo azarado...! - E gargalhou.
            Tertúlio ignorava com quem Bento dos Aires contracenava. Ao pesquisar a sala, encontrou sua imagem refletida num espelho que ocupava quase toda a parede à sua esquerda, e se assustou com o que viu. Não era ele. O semblante de um senhor calvo, de meia-idade, ocupava o seu lugar. Sorridente e amável sentenciou por sua boca ventríloqua:
            – Ôh, meu estimado sócio Bento!... Levante-se... Quero lhe dar o abraço que prometi. Hoje acertaremos todas as nossas diferenças... nada restará pendente.
            Tertúlio viu Bento dos Aires erguer-se. Só não sabia que o homem tinha uma barriga tão grande. Andar, para ele, requeria um enorme sacrifício. Tertúlio pressentiu um calafrio vibratório. Notou que a feição de Bento dos Aires alterou de repente e deduziu que a dele também. Consultou o espelho e agora ele era quem imaginou que representaria no feitiço contra o gorducho: o próprio Custódio – que teria o prazer de matar o seu assassino. Sacou a arma, enunciando:
            – Eu perdi a vida e você ganhou a morte – e descarregou o revólver contra Bento dos Aires, que sucumbiu, sacolejando todas as suas banhas na queda.
            Tertúlio sabia que atrás de si havia o segurança, o qual, logicamente, estaria armado e a essa altura já apontava um ou dois revólveres para ele. Sem acrescentar que precisava descer o morro e ludibriar toda aquela guarnição que o vira subir. Virou-se temendo já sentir alguns projéteis atingindo-o na nuca. Prendeu a respiração. Não sabia qual rosto o segurança havia visto, pois desconhecia quem batera na porta.
            Tertúlio sente que todos os seus órgãos são trespassados por balas. Joga-se no chão pensando que não viera à Capital para morrer. Debateu-se. Arrastou-se. Esticou-se e seus ombros foram tocados... Alguém, insistente, o chamava:
            – Tertúlio!... Tertúlio!... Tertúlio!...
            Tertúlio, estupefato, arregalou os olhos para o alto. Dona Norberta e seu pai, mais aterrorizados do que ele, o seguravam pelos ombros.
            – Acorde de vez, Seu Tertúlio! – suplica Dona Norberta.
            – Eu... já não... acordei... hoje?! – Tertúlio mirou seu corpo. Atentou o sol.
            – Não, Seu Tertúlio, o dia está apenas clareando...

            Tertúlio sabia que não tivera um simples pesadelo, mas sim uma mistificação de cunho sobre-humano. Para confirmar o descomunal crime de bruxaria, aguardou ansioso, que as notícias viessem da Capital, pois causaria impacto fatídico se ele borrifasse a ocorrência de véspera novamente.
            E os jornais testificaram: Bento dos Aires havia sido morto pelo seu segurança, embora este acusasse um sócio do morto. Alegando que a sua arma mascara seis vezes quando estivera face a face com o facínora que desapareceu. O pobre do segurança foi linchado até a morte pelos moradores da favela, pois o sócio do morto, que ele acusava, havia falecido duas horas antes, de infarto, em um hospital longe dali.
            Tertúlio se surpreendeu quando seu pai, desfolhando o jornal, desabafou:
            – Agora meu filho está vingado.
            – Seu filho?! – alegrou-se Tertúlio, que pensava ter outro pai.
            – Tertúlio, Custódio... era seu irmão.
            Tertúlio não conteve a felicidade e desafogou:
            – Eu já sabia, pai.
            – Como?!... Isso é segredo de setecentas chaves!
            – Ele me contou...!
            - Quando, filho...?
            - Naquela noite do temporal.
            O pai de Tertúlio coçou o couro cabeludo e confessou:
            – O diabo é que agora eu acredito em você, filho.
            Tertúlio passou a ser visto como uma criatura quase normal. Dispensou as visitas de Padre Jacinto. Porém, não deixa de entrar no cemitério e orar na cova do irmão, todas as vezes que por lá passa.
                                                                        FIM.


Adaptação de um episódio do livro: O Padre é a Viúva

BLOG O PLEBEU

domingo, 10 de novembro de 2013

MINICONTO : O AVISO

BLOG O PLEBEU
Em seu olhar havia uma sombra de tristeza. Seu andar hesitante enunciava a falta clara de destino. Tudo nela lembrava desespero. A ponte, quase encoberta pela névoa, estava bem à sua frente. Dava para entrever, na paisagem opaca, o início do corrimão feito em madeira trançada. Bastariam poucos passos, não mais do que vinte e encontraria a solução. Quando, de repente, uma luz amarela furou a neblina iluminando a ponte e ofuscando seus olhos. A buzina alta cortou a madrugada como um grito de socorro. A freada estridente e prolongada deixava em suspense uma tragédia final. Ela estancou os passos e fechou os olhos. O veículo parou a um palmo do seu corpo. Ouviu uma voz sumida, de dentro do veículo, gritar com ironia:
- Você nasceu de novo hoje, mocinha? 
Ela deu três passos para o lado esquerdo e o veículo partiu mansamente, deixando um recado de dever cumprido. Como ela não estava ali para entender mensagens, seguiu para a ponte.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O CAUSO: ZECA MÃO DE FINADO

                 BLOG O PLEBEU
                 Zeca Mão de Finado tinha essa alcunha por ser comilão e sovina. Por ninharia ele pegava marimbondo. Quando a oferta aumentava, ele se deixava ferroar no beiço. Ficava sem falar uns três dias, porém, feliz da vida.
                Zeca Mão de Finado não podia ver um resto de tira-gosto sobre uma mesa que suas pupilas esbugalhavam famintas. Quase sempre pechinchava um pão com manteiga na padaria de Seu Joaquim a preço de pão seco dormido. Depois abria o danado ao meio e lambia as duas bandas manteigosas com a língua bem exposta, isso para distanciar do enorme bigode e pra ninguém pedir um pedaço, já que oferecer ele não era bobo.
                Foi assim que, certa ocasião, chegou um novato, de nome Miguel Paes, na cidade de Zeca Mão de Finado.
                Miguel Paes, moço desinibido, risonho... mais parecia político em campanha de segundo turno...
                Pois então, numa certa manhã, Miguel Paes se assentou no tamborete do balcão da padaria de Seu Joaquim, onde já se encontrava Zeca Mão de Finado – que acabara de lamber o pão manteiguento, de cabo a rabo. Miguel Paes não viu e nem sabia da mania do seu grande amigo Zeca.
                – Meu grande amigo Zeca! – exclamou Miguel Paes. – Que pão jeitoso, amigão!... Dê-me cá uma lasca, homem!
                Zeca Mão de Finado não gostava do sinal matemático de dividir, mas, dada a possibilidade de angariar multiplicação sobre Miguel Paes, ele não fez questão, cedeu.
                – Ôh, Seu Joaquim, o pão de meu amigo Zeca está com pouca manteiga...! E parece até... – Miguel Paes esfregou por três vezes a língua nos lábios e atestou com educação: – um pouquinho... rançosa... Ôh, Seu Joaquim, abra uma nova lata e atola de manteiga.
                Não teve jeito, Seu Joaquim pegou o pedaço de pão da mão de Zeca Mão de Finado, abriu nova lata e encheu de manteiga que as bandas nem se acomodavam direito. Seu Joaquim pouco se importaria se desta vez Zeca Mão de Finado lambesse a manteiga nas fuças de Miguel Paes. Zeca Mão de Finado é usura, mas não é burro. Apertou a lasca de pão para esborrar a manteiga. Aí, sim, ele lambeu com gosto para não deixar cair no chão.
                Mas em cidade pequena... esse causo foi coando de saliva em saliva até cair nos tímpanos de Miguel Paes. Como o nojo era antigo e a lasca de pão já havia saído, ele não vomitaria o almoço que fora na residência da futura sogra.
                A vingança bem feita é aquela que não é planejada. Tem que ocorrer espontaneamente, ditada pelo acaso. E essa foi encomendada pelo destino.
                Um dia, Miguel Paes pagava uma cervejada para dois colegas, justamente na padaria de Seu Joaquim, quando percebeu Zeca Mão de Finado que vinha chegando, procurando dinheiro pela sarjeta. Miguel Paes, pretensamente maldoso, ordenou a Seu Joaquim que lhe trouxesse mais um chopinho.
                Miguel Paes, que já havia tomado alguns, bebeu mais da metade do novo chopinho. Abriu a braguilha e ali mesmo, por debaixo da toalha, fez a urina jorrar com força, só para devolver o colarinho ao copo. Colocou o chopinho “batizado” numa mesa vazia e pediu outro para Seu Joaquim que já se ria, pois vislumbrara o Zeca Mão de Finado que se avizinhava.
                Zeca Mão de Finado chegou de manso. Cumprimentou a todos e foi observando as mesas. O chopinho solitário lhe sobressaltou aos olhos. Chegou mais perto. Não puxou assunto. Miguel Paes narrava um fato ocorrido numa partida de futebol da terceira divisão, na qual o árbitro buscou abrigo numa delegacia. Zeca Mão de Finado não resistiu. Precisava saber o que aquele chopinho “desacompanhado” fazia ali. Interrompeu:
                – Meu camarada Miguel Paes... me diga homem... de quem é esse chopinho desprezado? – farejou com os olhos gulosos.
                Miguel Paes não se fez de rogado.
                – Meu grande amigo Zeca, é de um caminhoneiro. Ele foi até ao seu caminhão com o chopinho e retornou com ele do mesmo jeito. Assegurou que era intenção sua pernoitar aqui e só seguir viagem amanhã, mas recebeu um telefonema de sua sobrinha avisando que a esposa fora hospitalizada em estado grave e chamava pelo infeliz. Então ele comentou que não arriscaria ingerir o chopinho e pegar no volante, caso fosse parado numa fiscalização a multa levaria seu salário para as cucuias. Então o caminhoneiro largou o copo na mesa e se mandou. Mas, pelo tempo... já deve estar quente.
                Zeca Mão de Finado abriu o sorriso. O sorriso ninguém viu, porque o bigode de escovão, que tapava até o lábio inferior, não permitia. Dava arrepios na alma ver Zeca Mão de Finado saboreando bobó de camarão... Terminada a explanação de Miguel Paes, a oferta fora feita: o chopinho estava mesmo desamparado e o colarinho era convidativo. Zeca Mão de Finado não pensou duas vezes. Ele não teria problemas... nem carro e nem carteira de motorista possuía!
                Zeca Mão de Finado abarcou o copo e, por receio que alguém lhe reivindicasse divisão, virou o conteúdo de um só fôlego. Quando terminou, pensou imitar os comerciais de cerveja e estalar os lábios, mas, assim que respirou, sentiu o azedume de banheiro de cinema de subúrbio lhe atravessar as narinas e o badalo da úvula querer saltar para fora da goela. Zeca Mão de Finado não evidenciou a péssima qualidade do chopinho com Seu Joaquim. Enrugou a testa. Esquadrinhou ao redor. Notou que todos o fiscalizavam, atentos. Agora sim, de estalo sacou que havia caído numa bruta sacanagem. Como esvaziara o copo, não sobrou nem uma gota para ameaçar, com um possível exame laboratorial, o autor da brincadeira nojenta, pois, embora Zeca Mão de Finado nunca tivesse experimentado, ele tinha certeza, absoluta, que aquele gosto escroto era de mijo.
                Contam que ele saiu às carreiras da padaria e foi mijar lá fora, ou melhor, vomitar. Contudo, quem viu a cena sem saber do ocorrido, divulgou que, dado a uma disfunção orgânica, o pobre homem passou a urinar pela boca.
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sábado, 20 de abril de 2013

UM CONTO DA VIDA REAL

Baseado em fato verídico

           Era início da primavera... pelos idos de 1941.
Abílio contava quatorze ansiosos anos. Ele tinha um enorme desejo de alcançar logo os dezoito. Sua maioridade significava a liberdade para a realização de um sonho que ainda lhe parecia longínquo. Toda tarde subia no morro defronte a sua casa e admirava a paisagem que se estendia ao longe. Quando crescesse, desvendaria aquela distância. Precisava saber o que existia além dela.
            Embora seu sonho fosse voar, ele aprendeu o ofício que lhe era possível: tornou-se mecânico. Trabalhou duro na oficina de Seu Dondon – e não dispensava serviço extra nos feriados - tudo para juntar mais dinheiro e um dia partir. Abílio mostrou-se habilíssimo em motores. Cada dia que contava escurecer, via clarear no horizonte a possibilidade de ultrapassar aquelas montanhas.
            Sua mãe, Regina, que tivera nove filhos - três mulheres e seis homens – enviuvara cedo. Seu marido, derrotado pelo vício do álcool, sucumbira junto com a bebida. Religiosa, sentindo-se amparada por Deus, não desanimou, batalhou nas plantações e criou seus filhos com o suor do rosto, o esforço dos braços e sempre trazendo um sorriso aberto nos lábios.
            Apesar de analfabeta, sem cobrar nenhum tostão, ela era a parteira oficial da região. Segundo os cálculos dos matutos antigos, ela já fizera pra mais de trezentos partos – “e não mascou nenhum” – garantiam como elogio para aquelas santas mãos calejadas.
            O fato é que Abílio ganhou dinheiro e idade. Mesmo contra a insistência da mãe, que implorava para que ele não fosse, Abílio encasquetou. Porém, para não despertar sofrimento maior, disse que faria apenas uma viagem de turismo até a Capital.
Com sua mala pronta, se despediu do pessoal choroso e partiu.
            A criação de Deus, além das montanhas, alegrava o matuto. Pisou na Capital como quem desce no paraíso e vislumbra o Todo-Poderoso de braços abertos sorrindo à sua espera.
            Fez novas amizades e pelo conhecimento que tinha em motores, Abílio foi convidado para manejar o guindaste do porto. Ele gostava de altura e de cima da máquina avistava grande parte da cidade.
            No primeiro final de semana, Abílio fez uma visita ao Convento da Penha. Ali, do alto do morro, se extasiou. A curvatura da Terra era notável na linha do horizonte. Com certeza, após aquela tênue linha que parecia flutuar nas águas salgadas, havia outra, e outra, e tantas mais até avistar terra novamente.
            Sua meta de vida passou a ser ganhar mais dinheiro para atravessar aquela linha. Engajou-se em trabalhos extras como sempre fizera.
Num dia de sol claro, o destino lhe abriu uma porta estranha. Mesmo atarefado em seu guindaste ele avistou, ao longe, um avião. Seu sonho voou para o céu. Não deixaria passar essa oportunidade. “Um dia vou estar lá em cima.” Abílio fez essa promessa e voltou ao trabalho.
            O destino lhe aguçou a curiosidade quando lhe ofereceu um final de semana sem serviço, nem compromisso. Os olhos de Abílio faiscaram de alegria ao se imaginar vendo um avião levantando voo bem de pertinho. Embarcou num ônibus direto para o aeroporto.
Entrou no saguão e algo o desanimou. Nenhum avião pousado, ninguém aguardando embarque, isso significava que, por horas, provavelmente, nada aconteceria. Sentou em frente a uma porta de vidro apenas para admirar a extensão da pista.
Quis o destino - mais uma vez - que um pequeno avião fizesse um pouso de emergência por problemas no motor.
Abílio postou-se atento às manobras. Estranhou a correria de alguns funcionários. Conversou com uma pessoa que conhecia o esquema do aeroporto e descobriu o motivo do pouso.
            Abílio, curioso, foi se achegando na área interna onde se encontrava o aeroplano. Dois passageiros desceram reclamando e amparando uma moça que passava mal, talvez comovida pelo susto que levara.
            Abílio, sisudo, se pôs a observar o estado da máquina. Esticava o pescoço de longe sobre os ombros dos que, autorizados na manutenção, mexiam daqui e dali no motor do aparelho.
            Após muita confabulação e tentativas, não descobriram o defeito e cruzaram os braços. Abílio, meio tímido, se aproximou mais um pouco da aeronave. Depois de dois movimentos de pescoço, indicou a peça que apresentava pequena avaria, mas que, para o funcionamento do motor, era preciso a sua troca.
            Os profissionais – qualificados - se assustaram. Não tinham atinado para o tal defeito. Rapidamente se puseram na substituição da peça. O piloto subiu para testar se funcionaria. Para surpresa de todos, menos para Abílio, o motor ligou com um barulho suave. Todos sorriram satisfeitos, menos Abílio, pois para ele não tinha nenhuma graça ver um motor funcionando no chão.
            Mas o destino traiçoeiro sabe agradecer. E quando perguntaram para Abílio como poderiam retribuir o grande favor... ele não teve dúvida:
            - Um voo sobre a cidade seria recebido de bom grado...
            E foi dessa forma o agradecimento, já que Abílio, expusera, acabrunhadamente, que nunca voara na vida.
            Ao ouvir que seu pedido fora aprovado, foi como se tivessem dito que ele receberia, para toda a vida, um par de asas e que poderia voar para onde bem entendesse.
            Se do morro do Convento da Penha ele avistava o final do horizonte, lá do alto talvez pudesse ver Deus...!
            Como o avião pousou sem nenhum lugar vago, a moça que viera com a tripulação, ficou em terra para que Abílio pudesse fazer o passeio.
            Assim ocorreu.
Levantaram um voo tranquilo e subiram. Sumiram na distância e das vistas das pessoas. Enquanto eles passeavam, todos buscaram o que fazer. A senhora entrou na sala de recepção do aeroporto, sentou-se e ficou a esperar. Vinte minutos se passavam e todos atentaram os ouvidos, mas nenhum barulho de avião. Trinta minutos e a senhora levantou-se. Andou pela pista de pouso. Observou o céu e nada. Quarenta e cinco minutos e todos do aeroporto se movimentavam com binóculos enquanto outro chamava pela telefonista.
E nunca mais foram vistos. Nem passageiros, nem tripulação, nem aeronave.
A senhora que ficou esperando, cansou e foi embora num táxi.
            A mãe de Abílio não se conformou com a notícia. Peregrinou em busca de informações. Porém, dada à tecnologia da época, mesmo percorrendo quase todos os aeroportos do país, nada colheu.
            Resolveu consultar um religioso que fazia muito sucesso, considerado quase um “santo vivo”, por ser capaz de relatar, por visões espirituais, o sucedido com pessoas desaparecidas.
            - Mulher, quantos filhos tivestes? - perguntou o Sacerdote, parecendo sabedor da resposta.
            - Nove, Padre - respondeu humildemente.
            - Teu gesto é louvável, mãe. Porém, a Santíssima Virgem Maria teve apenas um... e O presenciou morrer na cruz.
            Ela entendeu o recado e mesmo de mãos vazias, voltou conformada para a sua casa. Contam seus ex-vizinhos que todas as manhãs, ao abrir a porta, ela esticava o olhar na distância das campinas, na esperança de ver seu filho regressando.
            Essa esperança morreu velhinha com ela, aos 98 anos de idade.
            Uns comentavam que o avião caiu em alto-mar. Outros afirmavam que todos eles resolveram sumir no mundo.
            Ainda há, entre os seus conterrâneos, quem garanta que Abílio foi o primeiro ser humano abduzido do Planeta. Mas eu creio que ele convive com sereias e tritões. E, quiçá, um dia volte, com poderes magníficos e com a mesma idade que partiu.